O professor de português do cursinho estava explicando sobre objeto direto, indireto, transitividade... Alguém lembra? E começou à falar do verbo “gostar”. Exemplos básicos, comuns para nós, pessoas normais. E aí entrou numa particularidade. Gostar no sentido de experimentar, degustar e também gozar, utilizar.
Abro parênteses para breve explicação, necessária ao andamento do “causo”. Gostar é comumente usado no sentido de apreço, verbo transitivo indireto (necessita de preposição) “Eu gosto de comer.”, “eu gostaria de dormir mais.” etc. Há uma forma bem esquisita de usar esse verbo, que é no transitivo direto(sem preposição) “ Nunca gostei mamona” (nunca experimentei), “ Não gosto os prazeres da vida” (não gozo).
Depois da explicação houve muitos porquês, algumas pessoas claramente revoltadas, e uma mulher em particular não aceitou, não conseguiu compreender e pedia exemplos e mais exemplos. E o professor, solícito, gesticulava e repetia, ajudava de todas as formas.
- Eu nunca gostei jaca. Gostei Jaca. Nunca coloquei jaca na boca.
E a dita com cara de paisagem.
- Diga-me alguma coisa que você já gostou.
- ...
- Algo que você tenha colocado na boca e engolido.
- Engolido?
-Ou não, mas que você tenha colocado na boca.
A mulher perguntou, com claro tom de insegurança:
-Tem que ser comida?
Por dez segundos, a classe ficou com cara de paisagem antes de explodir numa gargalhada. Daí que ela percebeu o que falou, ficou roxa e tentou consertar, mas não conseguiu voz no meio das risadas. O professor, tão rápido em respostas engraçadinhas, demorou antes de responder:
-Mas escova os dentes depois para falar comigo.